are you dead or are you sleeping
Havia duas possibilidades, a online e a offline. Escolhi a offline. Estou falando de editor de texto, google docs ou Word, e só o fato de eu cogitar o docs já me surpreende porque não tenho o hábito de usá-lo. Mas como esse texto não é pra ser compartilhado em uma nuvem, parti pra minha escolha de conforto, ou melhor, familiaridade. Como boa criança nascida no início dos anos 90, o computador na sala era um trambolho a ser decifrado. Passei horas no paint arrasando com o brush, com formas geométricas coloridas e retângulos de dar inveja ao Mondrian. Procurava textos impressos para datilografar no Word enquanto descobria fórmulas mágicas no Excel. O Power Point, meu queridinho, era onde ficava pensando nas várias possibilidades de animações e transições e é óbvio que esmaecer em formato de estrela era a única possível. Horas de pinball, paciência spider (que era muito mais legal e dinâmica que a paciência convencional) e incontáveis tentativas de entender as regras do free-cell e do campo minado. Até hoje não aprendi. Internet? Tem, mas tá faltando.
Em algum momento o computador foi conectado à internet. O barulhinho do cabo ethernet encaixando na porta click era o meu ASMR. Foram muitos dias tentando configurar o provedor IG com aquele cachorro west terrier olhando pra minha cara, até que consegui entrar na internet aos finais de semana e de madrugada por que o pulso era mais barato. E com isso eu pude imprimir muitas receitas do site da Ana Maria Braga e entrar no site assustador.com, tudo a pedido da minha mãe (eu tinha medo do site e ficava olhando pro outro lado). Pra mim sobravam as charges animadas do humortadela e muito Sonic no site Fliperama.
Pula pra 2024, o ano da tecnologia.
No momento em que escrevo a frase acima, solto o meu -coça a garganta- bocejo de ansiedade. Sim, com a ansiedade controlada devido a terapia e medicação, o corpo arruma mecanismos pra mostrar que ela não vai embora, só fica dormindinho. Curioso que, enquanto estava descrevendo meu mundo encantado pré-internet, eu só senti uma nostalgia boa e uma paz no coração nenhuma palpitação.
Anteontem (05/11) o Trump venceu a patética eleição dos EUA e eu fiquei sabendo pelo grupo do Discord, em vez do Bluesky onde moro atualmente. Foi a primeira vez em muito, muito tempo, que acordei e não abri direto as redes sociais. Logo num dia desses, pauta quente na rede da borboleta com muitas análises acertadas ensinando o que a esquerda tem que fazer. Com a notícia, me segurei pra não abrir o app, pois que diferença isso faria na vida de Davi Brito, o mais novo membro do juristt? Brincadeiras à parte, percebi que eu posso sim controlar o momento em que fico offline. E quando digo offline quero dizer fora das redes sociais e grandes portais de notícia. Independente da hora que eu “entrar na internet”, vai estar tudo ali. Isso me fez refletir que grande parte do tempo que estou nas redes ditas sociais, estou esperando algo acontecer. Um post legal, uma mensagem do crush, uma notificação de que o meu post sobre beijar pessoas com nomes bíblicos teve mais uma curtida. Nesse entremeio, a louça fica pra lavar, a caixa de areia dos gatos pra limpar, a roupa pra tirar do varal e, principalmente, fico sem estudar.
Hoje, 7 de novembro, me propus a não entrar na internet pela manhã, pelo tempo que julgasse necessário. Acordei às 8h40 e dei uma aula das 9h às 10h. Abri apenas o WhatsApp pois é o canal de comunicação com os alunos. Tendo em mente as palavras que escrevi acima, que eu controlo o momento em que entro na internet, parti para as tarefas domésticas proteladas há algum tempo. Preciso pontuar que tarefas domésticas me tomam uma energia mental muito grande, um contrassenso pelo que vejo das pessoas ao meu redor, em que essas atividades costumam ser terapêuticas ou pelo menos automáticas. Pude, então, trocar o tempo em que ficava esperando notificações por uma escrivaninha e uma cômoda limpas e organizadas e partir para a finalização desse texto, que comecei ontem.
Enquanto tirava uma camada de pelo de gatos de uma ecobag que serviu de cama por dias, lembrava de uma frase que minha psicóloga falou assim que comecei a fazer terapia: "saber é diferente de sentir". Eu sentia que a minha relação com as redes sociais estava sendo prejudicial, mas não sabia como mudar o cenário. Pela primeira vez acho que encontrei a ferramenta pra isso. Limitar tempo do aplicativo, colocar o celular longe num cofre lacrado com 3 cadeados cujas senhas dependem da resposta de uma questão avançada de imunologia, nada disso faria efeito. Eu tinha que, desculpa o jargão péssimo, mudar o mindset. E acho que cheguei nesse momento. Tô bem feliz com o vislumbre de uma relação mais saudável com o mundo online. Depois eu volto aqui e conto como as coisas estão fluindo.

enviando mentiras
Ei, olha isso aqui!
Pra quem não sabe, eu sou uma pessoa cuja linguagem do amor é "olha isso aqui". Então, no final de todo post vou fazer as indicações da semana. Com ou sem relação ao texto.
A indicação de hoje é iCarly porque gosto muito do jeito que eles tratavam a internet no final dos anos 00. iCarly é a minha série de assistir fazendo as unhas.

wake up the the members of my nation
Até a próxima,
Um cheiro.

