petite mort

vai você mesmo

     As opções do meu guarda-roupa estão cada vez mais escassas e sempre me arrumo com pressa. Aqui somos do time acordar cedo pra tomar café em paz e se atrasar com calma. Tenho uma blusa que comprei, já de segunda mão, em 2013 aproximadamente. É uma blusa azul índigo de botão, sem mangas, estampada com mini flores brancas e azuis e com colarinho. Há muito tempo, um dos botões caiu e, salvo engano, até guardei pra pregar, mas ele se perdeu no tempo espaço. Deve estar junto com os pés de meia que deixei pelo mundo. Ela ficou por meses, quiçá anos, no fundo do meu guarda-roupas, esquecida sem o botão que deveria estar costurado pouca coisa acima do umbigo. Por um momento, achei que iria ao armarinho e encontraria o botão igualzinho aos demais, ou com uma sutil diferença quase imperceptível. Depois aceitei que nunca passaria no armarinho. Desfazer-me da blusa não era uma opção, pois além de estar em perfeitas condições, ainda sparks joy, como diz a ex-guru de arrumação Marie Kondo (experimenta ter três filhos pequenos, não tem joy no mundo que faça você manter a casa imaculada).
     Recentemente, estava procurando roupa para trabalhar e, com todas as camisetas no cesto de roupa suja, tive que caçar rapidamente uma opção viável para enfrentar cerca de quinze adolescentes que passariam duas horas quase ininterruptas olhando pra mim. As únicas camisetas limpas tinham estampa do capeta (@sound3vision é caro mesmo), ou era praticamente um vestido três vezes o meu tamanho com o logo enorme da democracia corinthiana. As outras opções eram cropped e pouco family friendly. Foi quando olhei pra ela, a blusa que faltava um botão. Ela era perfeita pro look que montei em três segundos na minha cabeça, enquanto escovava o dente e me dava conta de que já tava mais atrasada que o atraso previamente calculado. Mas tem um botão faltando. Coloquei então a blusa para verificar a altura da casa sem sua companhia e me certifiquei de que não pagaria peitinho ou algo do tipo. Deu tudo certo, ninguém deu falta e minha querida brusinha estava de volta ao mainstream do meu guarda-roupas. Mas ainda tem um botão faltando. Novamente fiquei fantasiando que passaria no armarinho e encontraria o botão, dessa vez não tão perfeito, mas que se enquadraria bem na proposta. Não preciso dizer que não passei em nenhum armarinho né? Mesmo este sendo um dos meus locais preferidos desde muito jovenzinha quando aprendi a arte do crochê e do ponto cruz.
     Hoje, me vi novamente em situação de não há parte de cima adequada para este look. Os últimos sete dias foram de chuva e tem mais roupa no cesto que no armário. Ter usado o item anteriormente me empoderou para, dessa vez, colocar a blusinha no corpo sem tanto hesitar e sair. E fui. Estava então em pé, num momento de contemplação, quando olhei para baixo e vi a casa triste triste por estar desacompanhada de seu escudeiro arredondado. Todo mundo casadinho e ali, solteira e sozinha e coitadinha. Num rápido momento de digressão e reflexão, lembrei de como valorizo a diferença entre as pessoas e como o mundo pasteurizado é uma chatice. Pavor de gente básica que não pensa com o próprio neurônio, que só gosta se o outro gostar ou só faz se o outro também tiver fazendo. Sou simplinha, mas não sou básica. Foi quando pensei, e se no lugar do botão igualzinho aos outros, conformado, eu colocar um bem diferente? Agora estou me imaginando na busca de um novo botão perfeito, que na minha cabeça se tornou um botão em formato de margarida. Na nova proposta, ele ficaria bem destoante dos outros, como se fosse uma coisa “sou diferente mesmo e daí?”. É muito doido pensar que só de cogitar essa ideia eu já estou sendo transgressora para maioria das pessoas, que já vai ter gente me julgando (interior problems), mesmo que pra mim tenha uma vibe meio “She’s so crazy, I love her”.
     Prometo que vou ao armarinho e se não achar o bendito em formato de margarida vou comprar algum outro que traga menos reflexão.

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                                       ai eu sou tão doidinha maluquinha

     Ei, olha aqui!

     A indicação de hoje não tem relação com o texto e é o podcast “As crônicas de Anarina". Anarina é a mãe da boneca fantoche Adênia Chloe. Procure saber.